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hot dog.

maio 9, 2011

— Cara, você não pode dizer que faria alguma coisa e não fazer.

— To falando pra vocês. Duvidam?

— Conversa!

— Então vai lá…

*

Podia, ou queria, a essa altura já não entendia muito bem a diferença.

Os verbos se confundem depois de algumas doses que você nem lembra ter tomado mas paga de bom grado pra sair logo do bar, antes que ela mude de ideia.

Por isso foi em frente. Saíram. E a cada passo ela lhe parecia insuportavelmente mais provocante e quando abriu a porta do carro para que entrasse, jurou nunca ter visto um vestido tão perfeitamente sob medida para um corpo. Era cinematográfico. Embasbacante.

Foram conversando no caminho sobre alguma coisa que ele jamais vai se lembrar direito. O que ela falava pouco importava, mas a boca dela se movendo era o suficiente para acabar com a capacidade cognitiva de qualquer homem saudável. Era imprescindível ir em frente, não tinha o que fazer. Afinal podia, ou queria. Não era hora de pensar nisso.

A câmera do elevador não constrangeu. Ninguém sabe quem deu o primeiro passo, mas a resposta foi a altura. E a réplica, e a tréplica, e mal chegaram ao quarto, esbarraram na sala. Queria ver o quanto podia ir. Queria a respiração dela o mais perto possível. O seu oxigênio, o perfume dela entrando em seus poros. Enfincar as unhas. Mãos, olhos, pele, numa massa disforme e única. Podia dissolver-se nela, só pra ver se sairia inteiro.

E não importava quantas vezes pudesse, sempre iria querer.

*

A repetição é uma condição. Mas não existem repetições, apenas um querer de novo incansável. E essa é toda a diferença.

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ano 1.

agosto 9, 2010
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Algumas das melhores coisas que aconteceram na minha vida foram a partir de uma aposta. O blog completou um ano em Julho e, parar variar, teve início com uma aposta. Bem besta, como toda aposta deve ser. Eu e um amigo, cansados de não conseguir pôr em prática nossos anseios de criação (ele com desenhos, eu com textos), decidimos que um blog era uma boa ferramenta de disciplina e motivação para que produzíssemos, de fato, alguma coisa. O problema é que a nossa inércia era tão grande que nenhum de nós se movimentou realmente para criar o tal do blog. Patético. Daí entra a aposta: quem criar o blog por último perde. Nem me lembro se chagamos a apostar alguma coisa mesmo. Mas era isso. Perde.

Bom, perdi. Isso rendeu esse post aqui do meu amigo http://migre.me/13kai

É bacana ver como o conceito do blog mudou nesses doze meses no ar. Talvez o assombroso seja perceber como eu mudei nesse tempo. E isso fica muito claro  quando releio cronologicamente os textos. Chega a dar vergonha revisitar a minha cabeça de um ano atrás e, ao mesmo tempo ver que algumas coisas estão exatamente as mesmas. Mais do que eu gostaria. Comecei o blog por um objetivo. Hoje, mantenho ele por outro e espero que ele continue mudando. Hoje, acho que esse blog é uma das coisas que tenho, das quais mais dou valor.

Em 1 ano de blog percebi: sou muito menos interessante e escrevo muito menos, em quantidade e qualidade do que pensava ou gostaria. Escrever no blog foi o processo que precisei passar pra dar este tapa em mim mesmo. Mas sinto que essa falibilidade na minha segurança acabou tornando a escrita mais instigante, de certo modo mais madura. Cada dia eu me acho mais falho e, por isso mais interessante. Esse desvendamento das falhas, esse desnudamento que é publicar palavras, esse processo que só consigo escrevendo, é o grande motor que me faz continuar.

Agora é esperar mais um ano pra ver por onde vou morder a minha língua novamente.
Aqui vai uma lista particular dos textos preferidos. Pode ser um guia de como não perder tempo nesse blog porque honestamente, os outros não valem a pena. De verdade, sem lenga-lenga ou mimimi. Gastaria o meu tempo vendo os links bacanas aqui do lado! Isso é o que vale.

É isso.

Sem concerto. 7 julho, 2009
Conto em primeira pessoa. 7 julho, 2009
auto retrato e chega por hoje. 7 julho, 2009
Condicional. 25 julho, 2009
A série Caetano/Celina se salva pelo conjunto. Mas individualmente falando, gosto só dos textos:
Caetano. 13 de agosto, 2009
Terceira impressão. 28 agosto, 2009
Quando se acorda. 18 setembro, 2009
A série 27 eu gosto. Mas principalmente:
27 segundos. 8 novembro, 2009
Mesmo que mude. 8 dezembro, 2009
Da morte e seus desdobramentos. 12 dezembro, 2009,
Branco. (outudo que eu sempre sonhei). 22 dezembro, 2009,
Na lanchonete. 31 dezembro, 2009
Capítulo 31 / pág 216. 23 janeiro, 2010
Pedaços. 23 janeiro, 2010,
do conceito [3].  25 janeiro, 2010
Querido público. 5 abril, 2010,
última. 22 junho, 2010,
Conto em primeira pessoa [2]. 23 julho, 2010,

foram 48 posts. Em 1 anos são 4 posts por mês. Ridículo.

Conto em primeira pessoa [2]

julho 23, 2010
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Eu não sei. Acho que estou perdendo alguma coisa.

Não digo pela parte óbvia da história. Não é pela viagem, por você ir embora. Não é pela consequência imediata de não te ter mais no meu dia dia. Na realidade faz tempo que você não faz parte do meu dia dia. Em algum momento, lá atrás, eu já te perdi. Mas o fato de você estar sempre por perto, saber que está ao alcance, e que só me bastaria coragem e decisão pra tentar mudar as coisa, resolvê-las, bater na porta da sua casa, é o que me dá segurança. Uma segurança estranha, porque é um vir a ser que nunca se concretiza. Mas pelo menos, estar sempre por perto me faz acreditar que as coisas entre nós pode se resolver, mágica e naturalmente, com o tempo (essa entidade que todo mundo diz ser o segredo do universo).
O que eu estou perdendo não é você. Afinal é só uma viagem e eu sei que você volta. O que eu estou perdendo, mesmo, é a chance de acertar as coisas entre nós.

Eu não termino as coisas e acho até que tenho mesmo uma relação masoquista com o impasse da nossa situação. No fundo, acho que gosto de não resolver as coisas entre nós, deixar tudo suspenso, meio sem jeito, como se a todo momento estivéssemos juntos numa corda bamba e, num leve movimento, meu ou seu,  poderíamos pender para um lado ou para outro e cair pela vertigem da altura. Acho que no fundo gosto disso, acho até romântico. Todo mundo precisa de um leitmotiv pra sobreviver, uma grande história. E talvez não seja bem você a minha grande história, mas sim essa nossa situação estranha que chegamos. O meu grande paradigma, o que me movimenta. E por isso não posso resolver. Resolver a nossa situação é acabar com o meu leitmotiv. Não posso nem seguir adiante nem voltar para trás. Esse impasse com você, me faz acreditar num futuro que eu sei ser inalcançável, mas é disso que eu preciso. É a cenoura na frente do burro. A busca me conforta mais que o fim. Isso pesa, esse impasse ocupa um espaço. Até mesmo sufoca. Mas nesse sufoco que eu existo. O meu problema é que acredito que a menlaconia é bela, o sufoco é sublime.

Mas agora não. Com você longe, as coisas mudam. Indo embora você se liberta desse jogo sádico de corda bamba e vai viver outro lugar, outras histórias, outras pessoas e quando voltar, vai ser tudo outra coisa. Lá, esse impasse some, porque eu sumo, a minha figura, a minha presença, na minha voz, meu corpo. Lá eu não existo. Quem diz que as distâncias não separam as pessoas não passa de um escritor de frases de calendário. Separam sim. De modos diversos, com intensides e consequências que variam, mas separam. No nosso caso, de ínicio não vai mudar muito. Talvez troquemos emails com a simpatia educada que aprendemos a ter um com o outro; falaremos de besteiras que acontecem aqui comigo e ali com você; mas aos poucos a realidade vai se distanciar, as conversas não vão mais fazer sentido; aí vamos forçar os assuntos, a minha presença vai começar a sumir do seu mundo, a sua imagem a desaparecer do meu; aí vou ficar olhando pra algumas fotos, sentado na frente do computador; você vai encontrar outras histórias, outras possibilidades. Mesmo eu não querendo as coisas aqui vão continuar sem você, o nosso impasse vai desaparecer, por completo, até que o peso chegue a zero. Você partir, significa justmente o fim do meu delírio. O fim do sufoco, o fim do peso. Uma leveza insustentável.

Você está indo embora e eu não posso fazer nada. Por isso eu tenho medo.
Imerso na àgua. Um silencio absoluto. O corpo à deriva e a àgua inundando por dentro. Eu tenho medo de voltar a superfície, de respirar, encarar o oxigenio. Eu não sei o que vai acontecer quando eu tiver que encontrar outra história pra mim, quando finalmente você ficar livre e assim, eu estiver livre. Eu tenho medo porque não sei se consigo encarar a queda da altura em que me pus. Medo do leve. Medo do fim, do fim da busca.

O sobre nós acabou, sem nunca ser.
Como um elefante no estomago de um pardal. Ouvi essa expressão num filme chinês. Achei bonito.
Eu queria poder me despedir no aeroporto. Mas eu sei que não vou.

kubrickanas.

julho 16, 2010
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última.

junho 22, 2010

Queria queimar. Rápido. Veloz. Com muita força, carbonizando tudo que me rodeasse. Sobretudo queimar. Em chamas vermelhas, fervendo toda a minha vida de uma só vez. Com violência. Sem respiro. Queria nem respirar. Mas respiro. E queimo. Respiro. O máximo que consigo. A ponto de sufocar com o ar que engulo. Quero sentir cada célula respirando, o trânsito do oxigênio, minha pele e os seus poros. Túneis de vento que dão acesso ao pulmão. Respiro até que ele estoure, feito balão de fim de festa. Ofegante. A todo momento quero isso. Quero ouvir cada ruído que chega aos meus ouvidos com a maior potência possível. Como se fosse a última nota do universo. Arrebentar os tímpanos. Conversão das ondas sonoras em impulsos nervosos, de tal ordem, que perde-se o equilíbrio. Racha as estruturas, levando os ossos a pó, os órgãos entrando em choque. Salivaria. E cada gota de saliva contém o segredo do mundo, prestes a despencar da vertiginosa altura que separa minha lingua do chão. Explodiriam, as gotas de saliva, no piso de azulejo como bombas nucleares, dizimando uma população secreta de microorganismos. Plena combustão. Busco qualquer coisa me arranque uma expressão. Cada movimento quero que seja o último. E quero empenhar todo meu corpo nisso. Forçar as fibras dos músculos até que elas arrebentem como cordas de uma guitarra enferrujada. Queria gritar de dor. Esfolaria a garganta, até sangrar. Até que eu grite a dor do próprio grito. Até que eu seja então somente o grito. Nada mais. Me desmaterializar. Consumir e sumir com a minha carne. O meu corpo. O espírito. O máximo. Toda fúria em cada expressão de se ser. Queimar como um fósforo, uma tocha. Como um casarão abandonado. Como um castelo. Império. Intenso. Absoluto. Nocivo. Corrosivo. E que a cada vez que eu olhe para algo, possa realmente acreditar que aquilo é tudo o que interessa. Tudo me interessa. Por isso quero afogar meus olhos na luz gravando a imagem que enxergo. Não quero só olhar. Quero a maior intesidade, no último volume, no insuportável, no claustrofóbico, no exagero, no intoleravel, no transbordo, no impossível, me devorando, destruindo, no presente, onde a existência nunca é a questão.

junho 22, 2010

Somos sobretudo a memória que temos de nós mesmos

células [1]

maio 27, 2010
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– Que pesa mais? 3,7 quilos de picanha ou um canal dentário?

– Uma vez um amigo me disse que tinha a sensação de que nas festas (esses grandes eventos juvenis regado a álcool e músicas de gosto suspeito; praticado com maior ênfase no ingresso da faculdade (mas não necessariamente) que, difere de uma balada qualquer (balada! Não me acostumo com essa palavra), por exemplo, pelo fato do público participante derivar de um grupo controlável e um nicho minimamente próximo que convive com você, de tal forma que esse habitat comumente vivenciado na rotina se desloca para dentro desta tal festa propiciando todas as quebras de protocolo, abertura de todas as válvulas de escape, supressão e quase aniquilação do superego) a maioria das pessoas saía perdendo e não, ao contrário do que possa parecer, ganhando. Discordei. Mas não tenho certeza.

– Eu sou exatamente aquilo que nunca imaginei ser quando crescesse.

– A ironia está em alta. E há muito tempo. Isso me preocupa. Preocupa pois perde-se muito facilmente a mão entre o seu uso como ferramente de humor ou como ferramenta de opressão. A ironia ganhou o status de comentário sofisticado. Não é uma simples constatação – é a superação dela. ironizar é estar acima. Assim, todos querem tecer o seu comentário sofisticado blasésuperiorarrojadointelectualcomovocênãopercebeuissoantesmeubem?
Quem ironiza primeiro, vence o jogo. A ironia como forma de deixar o rei nu, por vezes, é perversa. Isso me preocupa.

– Se eu fosse um animal, seria camaleão. Se fosse uma comida, seria aquele pacote de feijões de todos os sabores do Harry Potter. Se fosse um objeto, seria aqueles anéis da infância que mudavam de cor segundo o humor de quem usava (alguém lembra disso?).

– Ouvi o cd debut do XX tardiamente. Não sabia o que estava perdendo. De alguma forma sinto que ele é a voz/síntese precisa de toda uma geração, mais especificamente, o adolescente de hoje (por mais que ele possa não se reconhecer. Isso é outra conversa). Falando assim, sem argumentos não tenho crédito nenhum, eu sei. Ainda vou escrever detalhadamente sobre isso, só não sei como. Isso porque esbarrei numa questão intermediária: sempre acreditei fortemente nas diferenças e especificidades culturais, mas alguma espécie de intuição onírica me diz que esse álbum fala de uma juventude universal sem tocar diretamente em valores universais. Por sua vez essa percepção me arremessou pra outra especulação – O desenvolvimento assombroso nos meios de comunicação/interação, que aproximam o mundo cada vez mais, suprimindo espaços, distâncias, barreiras, não estariam também aproximando, juntando, coletivizando, universalizando as nossas questões, as questões, por exemplo, de toda uma geração que nasceu imersa nesse cenário?
Enfim, preciso pensar mais.

– Meu próximo texto vai se chamar café e flores. Meio fofo demais, não? Talvez mude de idéia.