instante.
E em dois segundos você acabou com a eternidade.
Foram duas palavras que afogaram todas mil juras, todas declarações, tardes no sofá, minha mão brincando sobre o seu corpo, café da manhã.
Planos são uma legenda do instante.
Da morte e seus desdobramentos .
Morreu, por volta das 05:13h da madrugada, o doutor Meireles Quelles de Fidelis Telles. Logo de manhã, foi encontrado de roupão, sentado na cozinha com ovos mexidos e um quarto de bacon num prato a sua frente. Já não respirava. Foi com uma estranha parcela de euforia que o carteiro relatou a cena para a polícia e o jornal da pequena cidade.
Averiguar as causas da morte seria mero trabalho formal. Todos da cidade sabiam que a saúde do velho Meireles andava tão gasta quanto seu relógio de bolso que, de tão usado, achava-se no direito de não marcar mais as horas e que ele o mantinha, não por falta de dinheiro, que aliás possuia com larga segurança, mas sim por apego material que era o seu ponto fraco. De qualquer forma, acreditava-se ser típico caso de morte morrida, é o que se dizia pela cidade.
Também não se duvidava que, no funeral, seus dedicados filhos comparecessem. Eram três no total. O mais velho morava na cidade vizinha, onde tinha sua própria fábrica de móveis, já casado e com filhos crescidos. A menina fora para o exterior com um empresário de costumes suspeitos. E por fim o caçula, que já tinha os seus vinte e poucos anos, dos quais, nos últimos seis meses, andou sumido das redondezas, logo após ser pego em flagrante com a mulher do juiz local.
Sabendo da notícia, os três filhos voltaram à pequena cidade para se despedir de seu pai, se é que se possa chamar de despedida, e participar das conseqüentes cerimônias.
Como de costume, o funeral mobilizou toda população, ainda mais tratando-se de Fidelis, uma figura importante da cidade. Compareceram os políticos, as senhoras da paróquia, médicos, os advogados, os fiscais, alguns conhecidos, alguns desconhecidos, os intrometidos, outros curiosos. Telles não tinha mulher, não tinha parentes fora os três filhos, mas era bonitos ver como todos apareceram para prestar condolências. E foi com uma dignidade comovente que seus filhos não derramaram lágrimas, não deixaram cair uma gota sequer. E de modo correspondente, todos os presentes se mantiveram de forma honrada, digna e séria, sem demonstrar exacerbadas emoções, valores que o próprio finado exaltava.
De maneira impecável o padre proferiu um sermão sobre Meireles Quelles, suas obras em vida e a falta que ele faria para toda comunidade. Texto este, redigido já há um bom tempo pelo próprio defunto, que em vida sempre fora muito preocupado com sua imagem. Como uma verdade indiscutível todos balançavam a cabeça, enquanto o prefeito tirava um lenço do bolso para enxugar o suor que lhe corria pela testa, neste dia que de troça, nascera radiante.
Depois dos devidos rituais de enterro, os três filhos trataram dos necessários assuntos com o advogado do seu pai. Logo após a conversa que pareceu ser de grande agrado para todos os lados, cada um seguiu seu caminho, desta vez demonstrando mais emoções do que algumas horas antes. Os três deixaram a cidade novamente, junto com a vida e a memória de Fidelis Telles.
Era verão e convinha viajar no início da temporada.
Mesmo que mude.
E mesmo que ela mudasse, continuaria sendo amor.
E mesmo que tudo mudasse, as coisas, continuariam sendo o que são. Nada acaba ou deixa de ser. Talvez mal comecem, essa que é a verdade. Talvez tudo esteja aí, já posto. E então, as coisas, só se desenrolam, fazem-se ser. Com o tempo, mudam de cor, cheiro, forma, vão para esquerda, direita, dão meia volta e se disfarçam de outras, às vezes só por birra. Mas continuam sendo o que sempre foram. Ela mudou. Queria que ele entendesse essas coisas. Como o cabelo que cresce e pode-se cortar, pintar, enrolar, tornar a corta, e tornar a pintar. É outro, mas o mesmo. Não sabia explicar. Mesmo que em muito tempo, um dia, o seu amor se transformasse em ódio, mesmo que não sobrasse nenhum resquício do frescor inicial, mesmo que um dia o seu amor fosse deixado na casa antiga e ficasse esquecido no canto do quarto vazio, com os móveis velhos, ele continuaria existindo. Realmente não sabia explicar. Mas bastaria uma única música, ou então uma foto para que, no instante de um segundo, as camadas (alguns chamam de tempo) que se amontoam sobre o nosso coração, fossem perfuradas, e então tudo viesse à tona. Veríamos que mesmo que mudem, as coisas, continuam lá, como uma peça arqueológica que nos deixa rastros do passado. As coisas não acabam.
Ele não entendia o que ela tentava dizer.
27 anos.
Faltava pouco pra chegar aos 27. Olhou de relance e viu o relógio marcando alguma coisa para meia noite. Em breve envelheceria. Horas atrás cortou um bolo com alguns parentes. Certas manias não se vão, pensou. Por alguma razão, era tradição da família comemorar os aniversários um dia antes da data. Dizia-se que a festa de comemoração era uma espécie de ritual de entrada, de recepção e celebração do evento que se aproximava. Não se comemorava o aniversário, mas sim o prenúncio dele. A festa foi aquilo de sempre. Sua mãe lhe fez um jantar com seus pratos prediletos, tios que não via há um tempo, primos correndo pela casa, avó dizendo como você está cada dia mais moço e essas coisas mais. Acabou, aos poucos cada um foi tomando o caminho de volta e, a este horário, é provável que já dormissem. Agora estava sozinho em sua cozinha comendo mais um pedaço do bolo que sobrara. Estava realmente uma delícia. Tia Roberta era sempre certeira no creme, cobertura e recheio generoso que, a cada garfada, transbordava pelas bordas das inúmeras camadas do bolo. Olhou de novo para o relógio com maior precisão e viu que agora só restavam dois minutos. Tinha alguma louça na pia que fingiu não ver. Amanhã, provavelmente iria com os amigos para algum bar depois do expediente. Ririam bastante, contariam algumas histórias e eles, proporiam um brinde em homenagem.
Comemora-se uma idade. Comemora-se o marco. Na pressa, não se comemora o processo. Como se o aniversario nos envelhecesse no sentido mais poético da palavra. Como se não fosse mais um dia do ano passando, mas sim um ano passando num dia. Certas manias não se vão, pensou de novo. Deu a última garfada e viu no relógio 00:01.
Alguma coisa mudara de verdade?
Bem, achou que sim, mas tinha suas dúvidas. Não quis pensar mais sobre o assunto.
27 horas
Uma chinesa passou 27 horas beijando a carroceria de um Chevrolet Lova, ganhando assim um concurso organizado em Pequim para premiar com o carro aquele que mostrasse maior “amor” por ele.
Zhang Chunying, que trabalha em uma imobiliária, acabou com lábios e pernas quase paralisados. Quando o concurso chegou às 24 horas, os participantes que ainda restavam foram obrigados a beijar o automóvel apoiando-se em um único pé, relatou hoje o jornal “South China Morning Post”, de Hong Kong.
O amor pela música e pelos desafios fez com que Gonzales, produtor de nomes como Feist e Peaches se predispusesse a quebrar o recorde de artista solo que conseguiu tocar por mais tempo, ininterruptamente.
O antigo recorde foi em 2008. O indiano Prasanna Gudi tocou por 26 horas e 12 minutos. Gonzales tocou o seu piano por 27 horas continuas, parecendo bastante cômodo com seu pijama preferido.
27 minutos
Chegou no horário em ponto. Esteve ansiosa o dia inteiro, pra não dizer a semana inteira. Marcaram no café da livraria em que se conheceram. Sentou-se numa mesinha mais ao fundo e pediu o cardápio ao garçom. Deu uma olhada rápida, empurrou-o de lado e olhou em volta. Reparou nas pessoas ao redor. Mais adiante, viu que a livraria se encontrava especialmente movimentada. Talvez houvesse algum lançamento, tarde de autógrafos, pensou. Desviando sua atenção, o garçom reapareceu perguntando se já havia se decidido pelo pedido. Disse que ainda não. Muito cordial ele se retirou novamente. Ela procurou se distrair, então passou a ler linha por linha do menu, reparando na diferença de preço entre o folhado e o soufflé. Decidiu por pedir uma água enquanto esperava.
Já estava alguns minutos atrasado. Não era elegante a garota esperar. Por isso, pra disfarçar, de tempos em tempos mexia na bolsa, pegava o celular, abria ele, olhava-o seriamente, tornava a fechar, abria de novo, navegava em suas funções, para depois jogar na bolsa novamente. Tomava mais um gole de água. Esperava.
Decidiu ir ao toilet. Preocupada em não perder a mesa, avisou ao garçom que logo voltaria. Entrou no banheiro e se dirigiu ao espelho. Viu que sua maquiagem continuava impecável. Chegou mais perto para conferir os olhos. Intactos. Então ajeitou os cabelos. Jogou-os para frente do ombro, pelo lado direito. Desistiu. Deixou atrás mesmo. Lavou as mãos. Antes de sair foi ao espelho mais uma vez e deu uma olhada. Se sentiu confiante. Partiu de volta. A cada passo que dava esperava se surpreender com ele sentado, esperando por ela em outra mesa qualquer. Por isso andava devagar, mas sem querer parecer procurar alguém. Ficou mais parecendo que se esquecera do caminho de volta. Enfim chegou, sem ser surpreendida pelo caminho. Pegou o celular novamente. Desta vez se contentou em olhar apenas as horas. Isso a deixava aflita. Suas amigas todas diziam que ela era uma pessoa de muitas expectativas. Sua ansiedade era tema das conversas com a psicóloga. Era mania planejar dando corda a sua imaginação. Não se agüentava. Pensou em ligar. Hesitou. Deveria? Achou melhor não. Poderia parecer neurótica. Tomou num gole só o que tinha da sua água. Ajeitou-se no banco, cruzou as pernas, ergueu o queixo, respirou convicta e parou naquela pose de quem tinha a situação em seu controle. Mas não. Por dentro estava com uma espécie de dor barriga que subia pela garganta. Torcia para que ele tivesse a melhor das desculpas para que então a semana, as horas de preparação, escolha da roupa, sapato, cabelo novo, qual perfume, não fossem em vão. Mas isso, ainda era o de menos. O de mais, era que ele lhe desse segurança. E só. Mas cada minuto tirava isso dela.
Continuou ali. Olhando inabalavelmente para frente.
27 segundos.
Quando fecho os olhos é porque procuro concentrar cada terminação nervosa que envia os estímulos ao cérebro, que responde, e percebe o toque, a leve mordida dos dentes, e sente o calor úmido dos seus lábios. Exploro-os em cada pedaço, em cada milímetro e, se fecho os olhos, é pelo gosto da saliva, que roubo da tua boca, que no escuro é mais saborosa, e provo dela até o ponto de não saber mais o que é seu, o que é meu. É pelo odor do seu corpo, da sua pele, que me invade, entorpece. Com os olhos fechados, escuto seu batimento acelerado, a respiração ofegante ao meu ouvido, mas que me sobe pela espinha, e é como se um bisturi atravessasse a carne, causando uma dor, mas uma dor reconfortante, um corte delicioso, que depois esquenta de dentro pra fora. Lembro-me de respirar. Inspiro. Reparo no ritmo dos nossos corpos que se intercalam. Expiro. E percebo a beleza desta nossa dança. E é por isso que abro os olhos. Porque não quero privar minha visão desta imagem, de reter isso em sua memória. Não acho justo. Gostaria de fazer um rodízio dos sentidos, para experimentar todos eles ao máximo. Mas só tenho domínio sobre minha visão. Encaro seu rosto que permanece de olhos cerrados e nisso perco a sincronia das nossas bocas. Lembro-me de respirar. Inspiro.
Torno a fechar os olhos.
Pausa.
(Não estratégica, mas necessária.
Porque a vida é assim. (Não?)
Cheio de lacunas. Ficamos sem notícias. Acontece.)
Instruções para um sábado ensolarado.
Um homem um tanto esquisito, com rosto rosado, chapéu imponente. Vendedor de qualquer bugiganga, agitando os braços, gritando seus preços. Garotos, de jeito apressado, skate nos braços, suando contentes. Meninas, sorrindo do nada, falando de lado, conversa indolente. E eu, olhando encostada, há 13 minutos, calada, sentada.
Tenho essa mania faz não sei quanto tempo. Se não me engano comecei com isso na França, quando ainda morava lá, mas pra ser honesta, não tenho certeza. Desconfio que possa não ser uma simples mania. Talvez uma obsessão. Não sei.
A graça consiste em observar bastante antes de agir, para depois se ter a certeza que escolheu a pessoa certa. (Madame, de cara lavada, nariz empinado, anéis entre os dedos). Para dizer a verdade nunca tenho certeza da escolha. Quanto mais se pensa nos atos, mais se distancia do impulso inicial provocado pelo instinto e nisso, perde-se o frescor da intuição. Mas o que se pode fazer se a pessoa certa nunca aparece aos três primeiros minutos? (Senhor de voz bastante grave, fazendo piada, tomando cerveja). A pessoa certa provavelmente não vem da observação, mas sim da inspiração. Ela pode passar a minha frente em pouco tempo ou apenas no fim do dia. (Homem de barba, blusa de couro, expressão amarga). A pessoa certa é uma ilusão, mas uma ilusão de que gosto. Por isso finjo crer na observação, mesmo porque ela me diverte por si só.
De qualquer forma, depois de eleita a pessoa, passa-se para a fase seguinte. Ela é bastante simples. Basta seguir a pessoa sem ser percebido. (Mãe passeando com filho, sobrando carinho e ele, olhando para a praça). Ir onde ela for incondicionalmente. Entrar nos mesmos lugares, vivenciar os mesmos programas. De modo que se a pessoa for ao cinema, deve-se assistir ao mesmo filme. Caso vá ao museu, shopping, restaurante, de carro, de táxi, de ônibus, ao banco, mercado, sex shop, deve-se ir rigorosamente atrás e deleitar da experiência também, como se tomasse emprestado dela os seus gostos e vontades. (guarda de trânsito com caneta nas mãos, aplicando suas multas, sem gosto no ato). Isso dura quanto seu tempo, paciência e capacidade permitirem. O processo pode ser repetido durante o dia todo. Vale a pena também fazer anotações em seu caderno, de preferência, Moleskine.
Do Sentir.
Celina não era para ser. É filha única de uma mãe tida como estéril. Caso o estéril fosse o pai, a gravidez suscitaria muita conversa maldosa pela praça. Sendo a mãe, a gestação virou motivo de alegria e logo foi tida pelo bairro todo como um milagre dos céus. O casal julgara tamanha benção o ocorrido que não ousavam nomear o filho, tão pouco averiguar o sexo do bebê antes do parto, como se isso pudesse estragar ou sabotar o milagre. Não queriam interferir na obra que, sabe-se lá como, operava silenciosamente, de modo que só nomeariam-no quando estivesse carne, osso e choro em seus braços. Dessa forma, quando a criança finalmente nasceu, o médico que acompanhou todo o caso não hesitou em sugerir Celina, do latim, descendente do céu.
Caetano acredita que a medicina tem muito a aprender e que uma coisa sem explicação é simplesmente falta de conhecimento, não milagre. Por sua vez, Celina às vezes se aborrece com o ceticismo fervoroso de Caetano, mas não se incomoda muito, mesmo porque ele sempre o expressa com bom humor e cautela. Mas Caetano não é bem o homem que habitava seus sonhos de menina. O que de fato a incomoda, é a indecifrabilidade de Caetano.
Celina é do tipo de pessoa que não consegue guardar sua vida só para si. Ou melhor, sua vida não existe em si. Celina existe no outro. Os sinais de sua existência não residem nela mesma. Quando alguém sente saudade dela, aí então Celina sabe existir. Quando alguém se irrita com ela, aí sim sabe estar viva. Quando há ódio, amor, gritos, palavras, ciúmes, traições, alegrias, vontades e Celina enxerga seu reflexo nos olhos do outro, enfim, sabe que está lá. Por isso ela se esparrama no outro e se deixa invadir em cada recanto do seu ser, não esconde o que pensa, o que quer, o que sonha. Assim ela se sente preenchida e tem certeza de quem é.
Caetano não. Parece existir independente do mundo. Ele é vapor, não se pode pegar com as mãos. Não que seja introspectivo, fechado, mas ela sente não atingi-lo de verdade. Sente que há um mundo inteiro escondido dentro dele, do qual ela mal faz parte. Simplesmente sente, não sabe dizer em palavras. Celina sente, Caetano pensa. Caetano só fala quando já pensou. Celina fala sem sequer saber que existe uma ponte entre o pensar e a boca. Para ela a boca esta ligada ao coração, ao estômago, que é da onde parece ser a raiz do seu sentir. Quando ela ouve uma frase arquitetada de Caetano e sabe que por baixo dela existe omissões, reservas e poréns, fica aborrecida. Mas como não há muito o que ser dito, a omissão provada, Celina dá um sorriso e se cala.
Espanta-se como aprendera este tipo de sorriso, de pouca sinceridade. Não uma falsidade proposital, mas automática. A pouco tempo atrás não sabia fazer este tipo de coisa. Mas como diz Caetano, perdemos algumas coisas pelo caminho, e a sua pureza radiante de menina perdia para mulher que se sedimentava. Aprendeu novos sorrisos, daqueles que não vem da vontade, não vem do estômago. Aprendeu cordialidades ensaiadas, daquelas que nos dizem que é preciso se ter. Aprendeu a dizer sim, a contragosto. Não se sentia mal por isso. Não se envergonhava disso. Mas jamais havia imaginado tornar-se este tipo de pessoa, este tipo que um dia a repugnou, este tipo de pessoa que antigamente disse jamais se tornar. Mas agora o tempo mostrava como todos nossos julgamentos existem somente no momento presente em que são proferidos, pois no momento seguinte julgamos a luz de outros critérios, de outros conceitos. Mas como se sabe, o presente por vezes é pretensioso além da conta. O presente se julga absoluto, incontestável. O presente se pensa eterno. E daí que nascem frases como “Nunca farei isso”; “Mas que absurdo. Imaginem só!”; e por aí vai. Mas o tempo nos mostra como somos voláteis, mutantes e as certezas, só existem para serem arrependidas no futuro.
A sua certeza presente era que amava Caetano. E mesmo sabendo da inexorabilidade do amanhã, ela se afogava no hoje, afogava-se em Caetano e vivia este presente cego, este presente com ares de eterno, este presente traiçoeiro. Esse amar era tão forte que lhe causava dor física. Estar longe dele era estar longe de sí e por isso Caetano valia quantos sorrisos automáticos lhe saíssem da boca, mesmo não sendo aquilo que sonhava quando menina. Sem Caetano ela não podia ser Celina, esta Celina que não é mais menina. Talvez, no fundo, até gostasse que Caetano não fosse assim tão permeável como ela. Isso fazia com que ambos não se perdessem um no outro. Celina pensava em outro Caetano, mas não ousava mudá-lo em nada.
Para alguém que descende dos céus, sua adaptação a terra parecia ser um desafio que ia além de suas forças.
Celina sentia, e sentir cansa.
Celina.
Onde morava não era o seu lar. Celina acredita que plenitude é estar onde se quer. Se pôr onde se coloca. Celina não estava onde queria. R. General Meireles Quelles, número 51, ap 23. Não era ali onde queria estar. Ficamos surpresos com situações em que nos encontramos. Seja pela causalidade, dinheiro, sorte ou a falta dela, quando percebemos, moramos em um lugar mas vivemos com a cabeça em outro. Almoçamos num fast food pensando no restaurante ao lado, pagamos dívidas que não valeram o preço e pensamos na outra escolha que poderíamos ter tomado, trabalhamos numa empresa querendo fazer outra coisa, outro cargo. Às 16h agimos como se fossem 17, não vendo a hora das 18. Encontramos alguém quando queríamos estar com outro, vivemos com outros imaginando como seria estar com alguém, pedimos uma coisa para ganhar outra, falamos A querendo dizer B, ouvimos C esperando pelo D. E neste vai e vem, claro e escuro, esconde-esconde, o tempo passa e perguntamos se estamos onde queríamos.
Celina, cansada de sua casa, sai e decide andar.
Já é de noite. O céu escuro com tons de roxo, azul e nuvens densas, iluminadas pelas luzes ofuscantes da avenida principal cobrem a caminhada noturna. Os carros passam como animais ferozes, rugindo, zunindo, esgueirando-se. Sons secos e bruscos se misturam no borbulho das pessoas animadas na calçada. Os bares, lojas, restaurantes, invadem a avenida, invadem a noite. Logo a frente um grupo de jovens toma café com ares intelectual, discutindo qualquer coisa sobre política. A garota de cabelos longos e encaracolados conversa como se discursasse num palanque, com uma altivez que não combina com seu rosto delicado. Logo ao lado, um casal de velhinhos toma suas bebidas, silenciosamente, olhando para suas xícaras como se matassem o tempo, esperando pelo que não vai acontecer. Seguindo em frente, as mesas do bar explodiam em risadas. A música do estabelecimento dava novas cores ao clima fresco desta noite que com casaco era muito aconchegante, sem casaco, muito agradável. Um vendedor de poesias abordava um casal apaixonado que parecia não acompanhar a sua empolgação. Numa mesa que parecia ser de alguns executivos, o homem de terno, gravata vinho, alargada ao pescoço, já lá pelo sétimo chop, chamava em vão o garçom, o amigo, o chefe, o grande, implorando pela oitava rodada. Numa mesa ao fundo, com quatro pessoas, ouvia-se uma discussão acalorada sobre futebol e a tabela do campeonato.
Celina andava e olhava. Para ela, olhar fazia bem. Sentia-se melhor, seus pensamentos se amenizavam. O contraste com outras vidas fazia da sua vida mais leve.
O vento em seu rosto trazia a paixão pelas coisas de volta ao seu humor. Encantou-se com o malabarista no sinal do cruzamento. Parou para ouvir o violinista com a maleta do instrumento aberta e algumas notas e moedas pingadas nela. Ouviu todo o Vivaldi, pagou o músico com um solene cumprimento e gracioso aceno de cabeça. Celina seguia e sentia que agora estava onde queria, e andava sem saber pra onde, mas na direção certa.
Celina sentia que estava em tempo de mudanças. E que, como num filme de cinema, estava no ponto de virada do enredo, quando a história dá uma guinada e a protagonista entra no mote do roteiro propriamente dito.
Antes, ela pára numa charmosa vila onde há uma série de mesinhas européias, postes com lamparinas e um café simpático. Vai até o balcão e pede um cappuccino. Senta-se na última mesinha vaga. Virada para a rua observa o movimento inebriante da noite, pega seu caderno e se põe a escrever algumas coisas em francês.
É com certo susto que percebe uma mão lhe tocando o ombro esquerdo. Vira-se e encara um rapaz de pele morena, cabelos negros e cacheados, barba por fazer, calça jeans e camisa social branca. Com uma fala calma pede desculpas pelo susto e pergunta se pode sentar-se com ela, pois as mesas estavam todas ocupadas. Com um sorriso que lhe escapa pela boca, daqueles que saem como um soluço, ela fecha o caderno rapidamente e diz que sim. É assim que Celina conhece Caetano.
E este é o ponto de virada.
As cenas que parecem ser da maior casualidade, muitas vezes estão carregadas de entretantos, poréns, intenções medidas e situações arranjadas. É bonito pensar que foi mera coincidência Caetano se dirigir à mesa de Celina ao invés da mesa do velho barbudo que lia uma revista com cara de poucos amigos, ou para a mesa da garota que segurava o celular e mandava mensagens histericamente. É bonito, mas não é a verdade. Do mesmo modo, não foi por acaso que Celina imediatamente fechou o seu caderno, deixando-se disponível para uma conversa qualquer com o rapaz recém conhecido. Caetano que saíra de casa para tomar um ar e ir à livraria, teve uma vontade incontrolada de tomar café um quarteirão antes, quando passou pela vila e viu uma mulher com jeito de menina sentada sozinha, virada para a calçada, que escrevia distraidamente num moleskine. Celina, que já havia tomado todo seu cappuccino e já estava quase de saída, não hesitou quando Caetano lhe ofereceu outra bebida para lhe fazer companhia. Celina não percebia o quão premeditado era este jogo que começava a jogar com Caetano. Celina não percebia que já estava perdidamente encantada com o jeito do rapaz meio tímido, meio extrovertido, que lhe prendia toda atenção sem precisar dizer muitas palavras. Celina não percebia, mas já estava na gravidade de Caetano, em sua órbita. Celina estava onde queria.
Quando se acorda.
É realmente comum acordar. Abre-se os olhos. Torna a fechá-los. O movimento é repetido algumas vezes até se ter a convicção de encarar a luz invadindo sua retina, cabeça, dissipando o torpor do sono. Ainda desorientado, ensaia-se os primeiros movimentos do dia numa velocidade lunar, começando pelos membros e inspirando (novamente de olhos fechados) profundamente o ar frio da manhã, esticando até o limite os braços para o alto. Automaticamente, num giro que se aproveita da espreguiçada, os braços, as mãos procuram a companhia ao lado. O movimento é impensado e por isso falho. Celina não encontra Caetano ao seu lado. Finalmente, então, acorda.
Celina percebe que não está na casa de Caetano. Não está em sua estreita cama de solteiro, mas sim no seu próprio quarto, que lhe é mais impessoal do que deveria.
Quando se acorda de um bom sono, nosso corpo e mente se situam numa zona de conforto. Para quem não está acostumada a chamar lugar algum de lar, o porto seguro que imaginou foi Caetano, a cama estreita, a casa aconchegante com cheiro de café e cigarro, e não o seu quarto impregnado dela mesma.
Nada é mais agradável do que acordar onde se pensa estar, acredita Celina. Mas o principal para ela não é bem onde, mas sim em quem.
Quando acorda, Celina ainda espera por cartas que não vem, dias que não chegam, toques que não tem.
Notas do caderno de Caetano.
“Deus existe, mas não é. Só é quem pensa sua própria existencia.”
“Deus se encarrega da eternidade. O Diabo se encarrega do tempo.”
” A aproximação exagerada distorce tempo e espaço.”
“Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde elas estão. Se ainda o não posso compreender, sei todavia que em qualquer parte onde estiverem, aí não são futuras nem pretéritas, já lá não estão.”
“O presente é vertical. A eternidade é vertical.”
Notas do caderno de Amélia.
Filmes para se ver:
Nas Garras do Vício
Passaporte Húngaro
Invasões Bárbaras (puts…nao vi ainda)
Dolls (acho que é o filme que não vi do qual mais gosto)
Amarcord (acho que vou me arrepender)
Dogville
As Horas
Lugares para viajar:
Punta del Leste
Terra do Fogo (sabe se lá porque)
Amsterdã (sabe como é!)
Nuremberg
Tóquio
Compras:
Sabão em pó
Papel higienico
2 pacotes de macarrão
Molho de tomate
Shitake
Acelga
Alho poró
Vinho Malbec (escolher na hora)
Lençol novo
Notas do caderno de Celina.
“Aquilo que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Escolhem, juro, já os vi. Como se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. Tu diras que eles escolhem porque amam; creio que é o contrario. Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Não podemos escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto”
“A vida, como um comentário de outra coisa que não alcançamos, e que está aí ao alcance do salto que não demos.”
“Há pessoas que nunca teriam amado se não tivessem ouvido falar de amor.”
A metafísica do telefonema .
“Não há diferença entre a criança que tem medo do monstro em baixo da cama e o adulto que teme a Deus e o Diabo”.
Caetano como já foi dito, não é lá muito chegado a Deus. Normalmente gosta de pensar no mundo terreno como sendo lugar único e experiência máxima que o homem pode usufruir. O seu corpo, cérebro, coração, sangue, como sendo as únicas matérias de que é constituído.
A noção de Deus é antítese da vida. A noção de além, de mundo verdadeiro, foi inventada para a depreciação do único mundo que há, afim de não conservar ao nosso mundo terrestre, objetivo, razão ou tarefa por si só.
Como um animal instintivo, o ser humano procura sua sobrevivência máxima. Como ser sofisticado, inventa a eternidade e a alma imortal resolvendo esta questão e tornando-se o único animal que jamais perde para a natureza e o tempo. Em contrapartida, ficamos a mercê do Senhor da eternidade e do paraíso; e perante tamanho poder desvalorizamos nossas próprias forças. Dessa forma limamos a passagem pela única coisa da qual temos provas, sensações e vontades incontestáveis, a vida mundana. Seguir a Deus é seguir o bem e, portanto, ser merecedor do paraíso. Definindo-se o bem, instantaneamente cria-se o mal, Lúcifer, portador da luz, o anjo caído e divide-se o mundo. No dia em que se inventou Deus e o Diabo, passamos a viver a eterna batalha do Bem contra o Mal.
Caetano está sentado, em sua cama, de frente para televisão, desligada, como se conseguisse enxergar alguma coisa se passando no preto da tela que reflete a sua própria imagem, distorcida, com o celular na mão, olhando fixamente para frente. Este é o momento exato em que Caetano se vê diante do Bem e do Mal.
Caetano, entendam, embora costume dizer que o Bem e o Mal não existem pois Deus e o Diabo são meras invenções, se pega em conflitos espinhosos que o deixam na mesma corda bamba dos mais fervorosos fiéis. Por um momento se distrai pensando que, apesar de ser canhoto, sempre pega o celular com a mão direita, assim como seus cigarros. Os destros fariam a mesma coisa? Fumam com a mão esquerda, pensa ele? Repara também que embora mal tenha religião, se surpreende algumas vezes com vontade de rezar. Pra quem? Pergunta-se. Por fim pensa que, por mais que não acredite no Bem nem no Mal, eles não desaparecem, insistem em acreditar nele, e dele não largar.
O telefone no criado mudo toca. Caetano com um certo susto larga o celular na cama, se desvencilha do reflexo na tela da TV e, num movimento ágil, com uma meia volta por cima da cama, atira-se para o aparelho. Antes de puxar o telefone do gancho deixa tocar mais uma vez, dá um ultimo respiro e atende com a calma que costuma lhe cair bem.
No telefone, o Mal. Adiantando os passos de Caetano, afundado em dúvidas, hesitante com o seu celular, Amélia liga para ele antes que ele decida não fazê-lo. Percebe que Caetano atende como quem não esperasse por nada, então joga uma conversa e outra ao telefone e ele, sem saídas, não consegue fazer outra coisa senão entrar no jogo. Caetano ouve Amélia, mas sem se preocupar em escutar. Ouve como se fosse um ensaio de um script cinematográfico no qual se sabe quais papéis está se representando e que fala segue após qual resposta. Os dois sabem que resposta vem depois do suspiro, que risada vem depois da resposta, que silêncio se encaixa e onde tudo leva. Não. Não é o Mal que liga. É o Mal quem atende e finge se levar distraidamente pela volúpia das palavras de Amélia. Não há distração, há vontade em perder-se.
Quando o pensamento se atrapalha com a luz. Quando, preso ao rosto, só se estampa a vontade sair. De si mesmo. Quando há vontade de beber o mais longo dos goles. Quando só a busca lhe conforta. E não importa o que há no fim. Nesse momento, Caetano se sente de frente ao Mal. E este Mal, pensa, faz bem. Então Caetano é de quem melhor lhe sorrir. De Amélia e de quem mais estiver disposto a matar sua sede, na saliva, na vontade, à vontade.
Ora. Se o seu corpo, cérebro, coração, sangue, são as únicas matérias que o constituem, a alma é a invenção que deprecia o corpo, sua vontade, seu instinto. Não há nada mais anti natural, mais impuro do que as ditas condutas de pureza da alma. Neste mundo com os pés trocados pelas mãos, a alma impõe ao corpo e não o contrario.
Não. Não é o Mal quem atende. Não há Mal. Há vontade. Porque as vezes o Bem faz mal. Logo eles se anulam. Então Caetano se lembra no que acredita, sabe o que quer. Troca as últimas palavras ao telefone com sorriso no canto da boca, repousa o telefone no gancho, pega o celular jogado na cama e se olha novamente no reflexo da televisão. Só enxerga a ele mesmo. Sai ligeiro do quarto. Pega carteira e chaves na estante da sala e parte ansioso de casa com a leveza de quem crê que não há como errar.
Coisas que perdemos pelo caminho.
Quando criança minha mãe, sempre muito carinhosa, se preocupava pelo fato de eu viver perdendo alguns de meus brinquedos. Às vezes até chegava a achar que alguns garotos da rua os roubavam pelo fato de eu ser uma das menores crianças. A verdade é que sempre foram perdas totalmente legítimas. Sempre fui meio distraído.
Cresci ouvindo minha mãe dizer coisas do tipo “Não vai se esquecer de tal coisa Caetano…” ou “De novo menino?” ou “Olha onde tá pisando…” ou ainda “Não, isso não é sorvete!” O caso é que fui uma criança muito agitada e desatenta. O maior medo de minha mãe era que eu me perdesse em algum lugar e jamais encontrasse o caminho de volta para casa. Por isso nos passeios de fim de semana, ou até mesmo para me levar a porta da escola ela sempre apertou a minha mão com uma força que fazia suar toda minha palma, até o ponto que ela começasse a formigar por inteira, quase esmagar os meus pequenos ossos. Ela dizia que se não me segurasse firme eu iria parar prá lá da casa da tia Teresa, e olha que isso era bem longe pra mim na época. Ficava amedrontado, o que era a intenção dela. Até mesmo o dia do meu aniversario costumava esquecer. 23 de Janeiro. Meu irmão era quem primeiro me lembrava da data, ainda na cama do quarto em que dormíamos juntos. Logo depois, quando ia pra cozinha, minha mãe já havia feito ovos mexidos e meu pai lia o jornal, aguardando eu acordar para entregar o meu presente e mais tarde ir comemorar com um almoço em família na longínqua casa da tia Teresa.
Sabe, muitas vezes acho que o que me fez perder tantas coisas por todo esse tempo não foi bem distração. Uma tarde, indo brincar de luta de bonecos com alguns meninos, resolvi levar o mais poderoso de todos e claro, o meu preferido já há um bom tempo, desses que tinha armadura, que tinha espada e tudo. Depois de uma tarde dura de batalhas e muitos bonecos derrotados no chão, outros garotos da rua da casa verde convidaram agente pra jogar bola. Teve um bate boca, gente de lá pra cá, até escolha de time já tava acontecendo. De súbito o pessoal partiu decido, correndo em direção ao campo na rua de baixo. Por um momento confesso que esqueci meu boneco jogado no chão. Mas um segundo depois de ter dado algumas pernadas, me lembrei e parei bruscamente. Virei somente o pescoço para trás ainda em pose de corrida e pude ver o meu guerreiro ali, caído no chão, depois de seu longo combate, de todo seu triunfo e glória. Ao fundo os outros garotos passavam reto por mim na corrida ao campo. Naquele momento a corrida era mais importante do que o futebol que aconteceria lá adiante. Olhei por uma ultima vez o meu estimado boneco, fechei os olhos e parti aos trotes para o futebol sabendo que na volta provavelmente não o encontraria mais. É claro que esta ação jamais soube e nem pude explicar para ninguém naquela idade, de tal forma que, quando levava a bronca ao chegar em casa de mãos vazias, convencia-me de que não podia ser outra coisa senão a distração da qual minha mãe tanto falava.
Mas não. Hoje vejo que o que fiz realmente. Já tinha vivido bons momentos com ele, já tinha me proporcionado diversão, já tinha sido por muito tempo o meu preferido. Não é que estava cansado, enjoado dele. Mas para ser honesto comigo mesmo, chegar no campo era tudo o que eu mais queria naquela hora. Coisa de criança. Voltar para pegar o meu brinquedo quando na realidade o que importava era a corrida, significaria tirar a glória dele, o seu brilho, sua honra. Cá entre nós, brinquedos tem honra quando somos crianças. Pegá-lo de volta naquele exato instante seria aprisioná-lo a mim, um sentimento antes de pocessividade e medo da perda do que de amor ou, se é que se pode-se dizer assim, de paixão pelo brinquedo. Minha única vontade ali era correr ao campo, e só. Por isso deixei meu boneco ali na sua arena de combate. Era uma despedida terna, como quem se despede de uma viagem, querendo poder levá-la consigo no bolso mas sabendo não poder. Deixava ali o passado que lembraria com nostalgia. Deixava uma parceria no momento áureo sem as marcas do desgaste.
A vontade incontrolada de correr que me absorvera acabara logo quando cheguei ao campo, muito atrás de vários garotos. Sem demora a vontade já estava na pelada entre os garotos, no próprio futebol, na bola. Sabia que alguém encontraria o boneco, sabia que no fundo era uma troca, uma passagem, uma mudança. Sabia sem saber, mas sabia. Não voltava triste. Ficava até um pouco sentido, mas chegava a ser algo confortante e no fundo, mas bem no fundo mesmo, tanto que descobria somente anos depois, sabia que havia perdido a coisa certa.
Fui crescendo. De brinquedos, passei a perder materiais escolares, de materiais, peças de roupa, de roupas, chaves de casa, com o tempo e a idade passei a perder alguns amigos, dinheiro, celular, documentos, amores, contas a pagar, morando sozinho, alguns aniversários meus, parentes, pessoas, etc,..etc.
Não quero dizer que não seja distraído. Isso não tenho como esconder. Como consigo esquecer meus aniversários e perder meus documentos, duas vezes, é um mistério a mim mesmo. No entanto sinto que ainda hoje perco coisas que daqui a um tempo lembrarei com carinho que as perdi e saberei que fiz, embora um tanto sentido, as perdas certas pelo caminho.