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Conto em primeira pessoa [2]

julho 23, 2010
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Eu não sei. Acho que estou perdendo alguma coisa.

Não digo pela parte óbvia da história. Não é pela viagem, por você ir embora. Não é pela consequência imediata de não te ter mais no meu dia dia. Na realidade faz tempo que você não faz parte do meu dia dia. Em algum momento, lá atrás, eu já te perdi. Mas o fato de você estar sempre por perto, saber que está ao alcance, e que só me bastaria coragem e decisão pra tentar mudar as coisa, resolvê-las, bater na porta da sua casa, é o que me dá segurança. Uma segurança estranha, porque é um vir a ser que nunca se concretiza. Mas pelo menos, estar sempre por perto me faz acreditar que as coisas entre nós pode se resolver, mágica e naturalmente, com o tempo (essa entidade que todo mundo diz ser o segredo do universo).
O que eu estou perdendo não é você. Afinal é só uma viagem e eu sei que você volta. O que eu estou perdendo, mesmo, é a chance de acertar as coisas entre nós.

Eu não termino as coisas e acho até que tenho mesmo uma relação masoquista com o impasse da nossa situação. No fundo, acho que gosto de não resolver as coisas entre nós, deixar tudo suspenso, meio sem jeito, como se a todo momento estivéssemos juntos numa corda bamba e, num leve movimento, meu ou seu,  poderíamos pender para um lado ou para outro e cair pela vertigem da altura. Acho que no fundo gosto disso, acho até romântico. Todo mundo precisa de um leitmotiv pra sobreviver, uma grande história. E talvez não seja bem você a minha grande história, mas sim essa nossa situação estranha que chegamos. O meu grande paradigma, o que me movimenta. E por isso não posso resolver. Resolver a nossa situação é acabar com o meu leitmotiv. Não posso nem seguir adiante nem voltar para trás. Esse impasse com você, me faz acreditar num futuro que eu sei ser inalcançável, mas é disso que eu preciso. É a cenoura na frente do burro. A busca me conforta mais que o fim. Isso pesa, esse impasse ocupa um espaço. Até mesmo sufoca. Mas nesse sufoco que eu existo. O meu problema é que acredito que a menlaconia é bela, o sufoco é sublime.

Mas agora não. Com você longe, as coisas mudam. Indo embora você se liberta desse jogo sádico de corda bamba e vai viver outro lugar, outras histórias, outras pessoas e quando voltar, vai ser tudo outra coisa. Lá, esse impasse some, porque eu sumo, a minha figura, a minha presença, na minha voz, meu corpo. Lá eu não existo. Quem diz que as distâncias não separam as pessoas não passa de um escritor de frases de calendário. Separam sim. De modos diversos, com intensides e consequências que variam, mas separam. No nosso caso, de ínicio não vai mudar muito. Talvez troquemos emails com a simpatia educada que aprendemos a ter um com o outro; falaremos de besteiras que acontecem aqui comigo e ali com você; mas aos poucos a realidade vai se distanciar, as conversas não vão mais fazer sentido; aí vamos forçar os assuntos, a minha presença vai começar a sumir do seu mundo, a sua imagem a desaparecer do meu; aí vou ficar olhando pra algumas fotos, sentado na frente do computador; você vai encontrar outras histórias, outras possibilidades. Mesmo eu não querendo as coisas aqui vão continuar sem você, o nosso impasse vai desaparecer, por completo, até que o peso chegue a zero. Você partir, significa justmente o fim do meu delírio. O fim do sufoco, o fim do peso. Uma leveza insustentável.

Você está indo embora e eu não posso fazer nada. Por isso eu tenho medo.
Imerso na àgua. Um silencio absoluto. O corpo à deriva e a àgua inundando por dentro. Eu tenho medo de voltar a superfície, de respirar, encarar o oxigenio. Eu não sei o que vai acontecer quando eu tiver que encontrar outra história pra mim, quando finalmente você ficar livre e assim, eu estiver livre. Eu tenho medo porque não sei se consigo encarar a queda da altura em que me pus. Medo do leve. Medo do fim, do fim da busca.

O sobre nós acabou, sem nunca ser.
Como um elefante no estomago de um pardal. Ouvi essa expressão num filme chinês. Achei bonito.
Eu queria poder me despedir no aeroporto. Mas eu sei que não vou.

6 Comentários leave one →
  1. julho 26, 2010 11:43 am

    Oi Otavio!! Adorei o seu blog, tem muita coisa legal :) posso beber aqui todos os dias?
    não apaga não!!!! =-o
    Um beijão
    Lu

  2. otavionagano Link Permanente*
    julho 27, 2010 2:54 am

    Po,
    brigado Lu!

  3. julho 31, 2010 3:35 am

    esse foi muito bacana. o melhor de todos de longe. e não é por ser o mais [ou menos] bem escrito.
    mas dentro da minha listinha rirícula, esse é o meu número um.

    e não apaga, ô cretino!

  4. agosto 5, 2010 6:36 pm

    limão.
    você escreve bem.

  5. otavionagano Link Permanente*
    agosto 5, 2010 7:01 pm

    E esse objetoimediato.wordpress.com ?
    Promete heim! Formato bacana!

  6. agosto 7, 2010 5:09 pm

    “vai pro aeroporto!”

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