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última.

junho 22, 2010

Queria queimar. Rápido. Veloz. Com muita força, carbonizando tudo que me rodeasse. Sobretudo queimar. Em chamas vermelhas, fervendo toda a minha vida de uma só vez. Com violência. Sem respiro. Queria nem respirar. Mas respiro. E queimo. Respiro. O máximo que consigo. A ponto de sufocar com o ar que engulo. Quero sentir cada célula respirando, o trânsito do oxigênio, minha pele e os seus poros. Túneis de vento que dão acesso ao pulmão. Respiro até que ele estoure, feito balão de fim de festa. Ofegante. A todo momento quero isso. Quero ouvir cada ruído que chega aos meus ouvidos com a maior potência possível. Como se fosse a última nota do universo. Arrebentar os tímpanos. Conversão das ondas sonoras em impulsos nervosos, de tal ordem, que perde-se o equilíbrio. Racha as estruturas, levando os ossos a pó, os órgãos entrando em choque. Salivaria. E cada gota de saliva contém o segredo do mundo, prestes a despencar da vertiginosa altura que separa minha lingua do chão. Explodiriam, as gotas de saliva, no piso de azulejo como bombas nucleares, dizimando uma população secreta de microorganismos. Plena combustão. Busco qualquer coisa me arranque uma expressão. Cada movimento quero que seja o último. E quero empenhar todo meu corpo nisso. Forçar as fibras dos músculos até que elas arrebentem como cordas de uma guitarra enferrujada. Queria gritar de dor. Esfolaria a garganta, até sangrar. Até que eu grite a dor do próprio grito. Até que eu seja então somente o grito. Nada mais. Me desmaterializar. Consumir e sumir com a minha carne. O meu corpo. O espírito. O máximo. Toda fúria em cada expressão de se ser. Queimar como um fósforo, uma tocha. Como um casarão abandonado. Como um castelo. Império. Intenso. Absoluto. Nocivo. Corrosivo. E que a cada vez que eu olhe para algo, possa realmente acreditar que aquilo é tudo o que interessa. Tudo me interessa. Por isso quero afogar meus olhos na luz gravando a imagem que enxergo. Não quero só olhar. Quero a maior intesidade, no último volume, no insuportável, no claustrofóbico, no exagero, no intoleravel, no transbordo, no impossível, me devorando, destruindo, no presente, onde a existência nunca é a questão.

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